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Anestésicos em altas profundidades submarinas

O correspondente do jornal "Literaturnaia Gazeta" se prepara para participar da primeira série de experiências científicas de tratamento médico em instalações submarinas, e testes (inéditos no mundo) para definir as propriedades curativas de atmosferas de hélio e argônio. As idéias de A. Tchizhevsky sobre aerificação estão de volta!

 

O "Simulador de grandes profundidades submarinas" -- GVK-250, ou "casa submarina", ou ainda -- "kniazh Gvidon" (N. do trad.: kniazh Gvidon -- cavaleiro andante, herói de contos-de-fadas russos), assim batizado pela irmandade jornalística, no qual estão sendo realizados testes com voluntários, é de cor laranja e mede cerca de oito metros de comprimento por dois metros de diâmetro. Instalado na base "Planernoe", na periferia de Moscou, próximo ao aeroporto de Scheremetievo, está conectado a tubos metálicos, mangueiras e cabos. Há telecâmeras instaladas nas vigias de vidros grossos. O painel de controle de regimes de "imersão" possui uma fileira de telas-monitores, através dos quais observa-se o comportamento da tripulação quando sob "alta profundidade".

Acabou de ser realizada uma experiência de rotina. Os escafandristas "emergiram" e os jornalistas, fotógrafos e equipes de TV já foram embora. O escafandrista- especialista P. Spirkhov e um dos técnicos dobram e guardam a bandeira com a cruz de Sto.André (padroeiro da marinha russa), que havia sido pendurada na parede deste equipamento biomédico único. Prometeram-me deixar experimentar o cheiro do que sobrou da atmosfera de argônio. Esta atmosfera, conforme prognósticos dos cientistas, é mais saudável para a vida terrena do que a de nitrogênio, respirada por todas as coisas vivas do planeta. Durante o teste, a tripulação esteve numa atmosfera de argônio testando-a, testando a si próprios e aos remédios anestésicos, a uma "profundidade" de 6 atmosferas...

NOTA: Participaram da experiência 4 médicos e escafandristas experientes, cujo trabalho "submarino" foi apoiado por uma dezena de eméritos cientistas e especialistas. "Submergiram": Anatoly Vialon -- engenheiro de minas, especialista em eclusas da empresa Mosmetrostroy; Serguei Plaksin -- escafandrista de 2-a classe, principal colaborador científico do Instituto de Oceanologia da ACR (Academia de Ciências da Rússia); Igor Shumilov -- escafandrista de 1-a classe, chefe de eclusas da empresa Mosmetrostroy; Boris Pavlov -- dirigente do programa federal "Fisiologia Hiperbárica".

Esgueiro-me pela escotilha do equipamento acompanhado do chefe Igor Komordin, médico-escafandrista.

-- Esta experiência, tinha por objetivo conhecer a ação das substâncias anestésicas comumente utilizadas na prática cirúrgica, numa anestesia do ser humano a grande profundidade submarina. Até hoje ninguém sabia a dosagem correta destes anestésicos para dores de traumas, choques e queimaduras que podem ocorrer com escafandristas, salva-vidas de alta profundidade, trabalhadores de eclusas e outras pessoas que trabalham em ambiente submarino de pressão elevada, -- diz B. Pavlov. – Imaginem um escafandrista que sofre um trauma ao consertar um duto de gás ou petróleo localizado no fundo do mar. A dor pode fazer ele perder a consciência. Ou, de repente, um outro escafandrista sofre um ataque de apendicite aguda. O retorno à superfície – ou seja, a descompressão – pode levar desde algumas horas até alguns dias. Este retorno não pode ser mais rápido pois, conforme a lei de Boylle-Mariotti, o sangue da pessoa começa a formar bolhas de gás, obstrui as artérias do cérebro, coração e outros órgãos e a pessoa morre.

Hoje nós conseguimos definir as dosagens necessárias de anestésicos sob pressão de 6 atmosferas para obter o mesmo efeito das condições normais à pressão de cerca de 760 mm de Hg, isto é, de uma atmosfera.

-- Vocês aplicaram em si próprios diferentes narcóticos (obviamente permitidos para uso), levaram a si próprios ao estado de euforia, redução de sensibilidade à dor e perda de coordenação dos movimentos?

-- Sim. Até, aproximadamente, a sensação de "me sinto capaz de fazer qualquer coisa". A pessoa é tomada por uma sensação de extrema alegria. Todos os escafandristas estão rigorosamente prevenidos quanto à esta sensação, pois poderiam, a uma profundidade de 50 metros, simplesmente tirar da boca a máscara respiratória e oferece-la ao primeiro peixe que passasse por perto. Por causa disso, somente dois de nós tomaram anestésicos. Os outros dois ficaram observando e cuidando para não cometermos alguma besteira. Aliás, alguns jornalistas que presenciaram a experiência escreveram depois muita besteira. Do tipo de seriados, como o "monstro do século XVII". Disseram que entrei em contato com uma certa inteligência universal, que passeamos por uma tal de "realidade virtual". Que tínhamos medo de não retornar de lá. Tudo parecido com filmes de terror tipo "Freddy Kruger". Tudo o que descrevemos foram típicas alucinações provocadas por compostos farmacológicos e anestesia hiperbárica. Na realidade, as minhas sensações foram as seguintes: eu não conseguia assinar o próprio nome, perceber a distância até a folha de papel, quase não sentia a caneta e a consciência se desvanecia. As minhas sensações eram as mesmas das pessoas que chegam em casa altamente alcoolizadas e não conseguem colocar a chave na fechadura.

Bem, hoje ficou claro como funciona a metade (por enquanto, é suficiente) da dose clínica de anestésicos numa atmosfera especial. Como se sabe, todos os habitantes de complexos submarinos respiram não somente ar comprimido, mas também uma mistura gasosa especial. Os nossos cientistas -- pela primeira vez no mundo -- incluíram nesta mistura nitrogênio e argônio. E descobriram que estes gases não somente aumentam a capacidade de trabalho dos escafandristas, mas também alteram a composição gasosa do seu organismo. É por causa disso que o anestésico age de forma completamente diferente.

Além disso, nas experiências anteriores com farmacologia hiperbárica, descobriu-se um composto que permite a um médico escafandrista, ou um outro especialista, mergulhar a uma profundidade de 200-300 metros (respirando uma mistura de oxigênio-hélio) em 10-15 minutos (e não em algumas longas horas!) sem sofrer a síndrome nervosa das altas pressões que leva a pessoa a ter convulsões -- reação natural do sistema nervoso à rápida mudança de pressão. Isto é extremamente importante para prestação de auxílio médico em situações extremas e de avaria de dutos submarinos de petróleo ou equipamentos na boca de poços de petróleo marítimos. Estes trabalhos são necessários aos países com ricas plataformas marítimas continentais -- "shelf", tais como o Brasil, Noruega, Azerbaijão e, naturalmente, a Rússia.

Por este motivo, mesmo tendo sido aprovado pela direção do "Medbioextrem" do Ministério da Saúde da Federação da Rússia este composto permanece como "know-how" da "GNTs RF-IMBP" e do Instituto de Farmacologia da "ACMR"  

Os hiperbários apontaram, por diversas vezes, para a possibilidade de uso da mistura de argônio no campo da saúde e de trabalhos submarinos. Mas como esta mistura age no organismo humano?

Voltemos à física que estudamos na escola. A atmosfera atual da Terra é composta de 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio, 0,9% de argônio e 0,03% de gás carbônico. Nos anos 20 deste século, o grande químico N.N. Semenov (que entrou para a história como autor da teoria de reações químicas em cadeia), estudava as propriedades do argônio. E descobriu que este elemento é um ótimo catalisador de reações oxidantes. Como exemplo, quando o argônio é adicionado ao fósforo, o processo de combustão deste último acontece instantaneamente, em forma de explosão. E a oxidação é importante para a vida.

Surgiu então a questão: teria o argônio uma importância básica na atividade dos organismos vivos?

Ainda não sabemos. Entretanto, os cientistas atuais já consideram o argônio como gás fisiologicamente ativo. Constatou-se isto em experiências com animais. Inicialmente, colocaram pólipos na água saturada com uma mistura de oxigênio-argônio. O pólipo é o primeiro animal multicelular da Terra, representando o início da evolução. Perceberam então que os pólipos se multiplicavam e cresciam mais rapidamente nesta mistura do que na atmosfera nitrogenada! Depois, verificaram que também os ratos se sentem muito bem na atmosfera hipóxica de argônio. Estes últimos tiveram até aumentada a sua resistência à falta de oxigênio!

Atualmente sabemos que também o homem pode viver por muito tempo numa mistura de ar-argônio. Mas, por quanto tempo? Por enquanto, os prazos são de 7 a 10 dias. E aí impõe-se uma analogia: o primeiro vôo de Iury Gagarin em volta da Terra durou somente 108 minutos. Recentemente, o médico Valery Poliakov ficou no espaço sem gravidade por 1 ano e 4 meses. Os americanos vão mais além. Planejam para o século XXI, na primeira expedição Terra-Marte, realizar o vôo de volta de Marte à Terra numa atmosfera de argônio obtido do nosso vizinho do Sistema Solar. Aliás, as experiências de substituição do nitrogênio do ar por argônio num ambiente hipóxico, descritas acima, são a última palavra da ciência -- a sua mais nova conquista. E estas experiências já estão sendo realizadas há 4 anos.

-- Temos razões para acreditar que a atmosfera de argônio irá auxiliar na restauração mais rápida de tecidos vivos, -- conta os seus planos B. Pavlov. – Logo pretendemos realizar uma experiência com tritões e rãs "feridos" artificialmente. Venha assistir. Depois será a vez dos ratos e coelhos. Mais tarde, planejamos fazer experiências com seres humanos para verificar se os cortes e arranhaduras em sua pele saram mais rapidamente numa atmosfera de oxigênio-argônio. E também examinar como se dividem as células normais e cancerosas, em comparação com a atmosfera normal,. Aliás, o Sr. não gostaria de participar disso? Eu mesmo pretendo ser um dos voluntários.

Acabei concordando (mas não de imediato) em participar, percebendo que esta experiência é algo novo e interessante para o jornalismo científico da Rússia. E também porque a pessoa que conduzirá a experiência é um cientista de renome mundial.

O pai de Boris Pavlov era um oficial da marinha que foi transferido de Vyborg para Khabarovsk nos amargos anos pós-guerra. Lá, o pequeno Boris, já aos 5 anos de idade começou a ler "20.000 léguas submarinas" de Júlio Verne. E isto o motivou a transformar-se num dos principais escafandristas do Extremo Oriente e treinador da seleção de mergulhadores esportivos daquela região. Mergulha há 40 dos seus 50 anos, e já passou 3000 horas sob pressão. Candidato a doutor em ciências médicas, já escreveu teses. Um dos seus objetivos científicos é conseguir para a humanidade o máximo proveito da mistura oxigênio-argônio. 

Lenda dos hiperbários.

Um dos executores dos testes (que pediu para não divulgar o seu nome) contou-me a seguinte ficção. Conforme a Bíblia, os primeiros homens, Adão e Eva, comeram o fruto da árvore da ciência e, com isso cometeram um pecado, mas passaram a enxergar. Os habitantes dos céus aborreceram-se com a desobediência dos seres humanos e resolveram deixá-los mortais. Eles temiam que os homens comessem de repente do fruto da árvore da vida e ficassem tão imortais quanto eles próprios. Os habitantes dos céus não desejavam isto e, portanto, deveriam se proteger.

Do ponto de vista da ciência atual ou, se quiser, da ficção científica a ação dos habitantes dos céus poderia ser descrita do seguinte modo. Alguém apertou um interruptor e o argônio do ar da atmosfera da Terra foi imediatamente substituído pelo nitrogênio. Assim, acabou o paraíso na Terra. Os imortais habitantes dos céus, respirando a mistura de argônio, permanecem escondidos dos olhares curiosos em algum lugar dentro do oco Fobos, satélite de Marte, ou Io, satélite de Júpiter.

Pois bem, voltando ao mundo real, a próxima experiência da série "alta profundidade submarina" com seres humanos, ou seja, em si próprios, está marcada pela equipe de B. Pavlov para junho-julho deste ano. Os detalhes são os seguintes: os experimentadores entrarão na instalação "Kniazh Gvidon". Lá dentro, a atmosfera será de oxigênio-agrônio. Para testar a velocidade de processos de restauração de ferimentos operatórios em mamíferos, coelhos e ratos, estes serão submetidos a cuidadosas vivisecções de certas regiões de seus corpos, conforme todas as regras cirúrgicas. É provável que os voluntários façam o mesmo em si próprios. Se esta nova atmosfera proporcionar um efeito positivo e se tudo sair conforme planejado, esta atmosfera poderá ser recomendada para preencher as barocâmeras ou tendas de hospitais e clínicas de todo o mundo onde pacientes, submetidos a cirurgias difíceis ou não, deverão permanecer em convalescença. E também pacientes com traumas, ferimentos, queimaduras e congelamentos com diferentes graus de gravidade.

Este jornalista da "LG" pretende fazer parte da equipe de voluntários experimentadores hiperbarianos. Um dos passos que a equipe de "mergulhadores" pretende realizar na pesquisa de atmosferas curativas (se até lá conseguir preparar a parte técnica e organizacional) é encontrar uma explicação para as propriedades aero-ionizantes das misturas de hélio e de argônio, conforme Tchigevsky.

Do que se trata? Aleksandr Leonidovitch Tchigevsky desenvolveu, por encomenda do governo soviético da época (nos anos 30), um sistema de ar ambiente "de estações climatéricas" do tipo – "ar marinho" ou "ar das montanhas". Este sistema seria utilizado no gigantesco Palácio dos Soviets que deveria ser construído no lugar do templo de Cristo Salvador.

Mas o cientista desejava uma aplicação bem mais ampla para o seu invento do que simplesmente a manutenção e profilaxia da saúde dos funcionários de Stalin. Ele propunha o uso da aeração na indústria e no setor da saúde. Principalmente nas cabines herméticas de aviões de grandes altitudes, submarinos (combate à falta de aero-íons), astronáutica – em aparelhos de oxigênio das naves espaciais, almofadas de oxigênio e tendas, inclusive para recém-nascidos prematuros.

Passaram-se mais de 50 anos. Entretanto, em relação à aeração permanecemos até hoje no século dezenove. Ninguém faz aparelhos "Tchigevsky" para purificação de ar. E nem adianta falar! A impressão que fica é que os supertalentosos construtores de sistemas aeroespaciais tiraram na escola notas baixíssimas na matéria "História da ciência e da técnica". Pois a aero-ionização não foi instalada nas estações orbitais da série "Saliut" e nem na estação "Mir" ainda em órbita. Também não está prevista na estação internacional "Alfa". Os estudantes atuais não conseguem enxergar a necessidade da aero-ionização em seus projetos de bases lunares e marcianas. Só nos resta lamentar.

Aliás, conforme dados recebidos de algumas fontes, nos submarinos atômicos do tipo do novíssimo cruzador de titânio "Tomsk" (que recentemente entrou em ação patrulhando as costas da região de Kamtchatka) existem alguns setores com ionizadores de Tchigevsky. Mas, neste caso estamos falando de segredos militares e, é melhor o autor calar-se.

Em vez disso, citemos Antonov, o famoso construtor de aviões que, em 1968, escreveu à esposa de Tchigevsky: "Em 1960 foram instalados no meu gabinete de trabalho os ionizadores de Aleksandr Leonidovitch. Desde aquela época, e já há 8 anos, eles são regularmente ligados pela manhã antes do início dos trabalhos. O ar do gabinete está sempre fresco e respira-se facilmente. É difícil dizer o quanto devo da própria capacidade de trabalho e saúde ao meu organismo e quanto à ionização. Mas, apesar da idade, (62 anos) sinto-me muito bem e altamente capaz. Os resquícios da tuberculose fibrosa-cavernosa que me atormentavam de 1946 a 1958 desapareceram praticamente sem o uso de antibióticos."

Atualmente, a dificuldade básica da equipe hiperbárica é encontrar um patrocinador do gabarito de Savva Morozov (N. do trad.: novo milionário da Rússia) para testar de forma mais ampla as propriedades terapêuticas das atmosferas de hélio e de argônio. Ainda temos tempo e, falando francamente, contamos muito com o apoio dos leitores deste jornal.

Como exemplo, podemos citar o movimento popular, encabeçado por Helena Panina, que respondeu a um apelo semelhante e forneceu meios para o projeto e fabricação do aparelho "Geofarm-2". Este destina-se à profilaxia e tratamento de doenças pulmonares através da aspiração de misturas aquecidas de oxigênio-hélio. Estas misturas comprovaram sua alta eficiência no tratamento de bronquite asmática, síndrome brónquio-obstrutiva, congelamento e, em perspectiva, como hipoterapia controlada em cirurgias complexas.

Saímos através da comporta do equipamento "submarino" de volta ao "atracadouro", discutindo sobre quem teve mais problemas com financiamento de suas descobertas – Cristóvão Colombo ou Afanazy Nikitin? Scott ou Amundsen? Já Niels Bohr teve sorte pois vivia numa vila à beira-mar, trabalhando tranquilamente na construção do seu modelo de átomo, às custas de uma empresa dinamarquesa, fabricante de cerveja. Mas, isto já é uma outra história...

Andrei Filippov

Literaturnaia Gazeta de 27 de janeiro de 1998

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