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Ciência e Técnica

(Nota: Essa reportagem foi escrita antes da queda repentina (provocada) da estação Mir, que queimou na atmosfera antes de cair no oceano Pacífico)

GUERRA NAS ESTRELAS

Se as estações espaciais não se destruírem antes por abalroamentos (como ocorreu recentemente), elas correm um risco ainda maior:

serem devoradas por micróbios-mutantes

O recorde absoluto de tempo de permanência no espaço não pertence ao homem, como quer nos convencer a imprensa mundial, -- mas aos micróbios. Eles estão na estação espacial Mir há longos 11 anos. Nada pode com eles. Adaptaram-se à falta de gravidade que é fatal ao homem, instalaram-se em todos os cantos da estação, introduziram-se nos poros de polímeros e metais e tornaram-se parte tão indivisível da nave como a sua carcaça ou os sistemas de manutenção de vida. Além disso, estes sobreviventes do espaço estão multiplicando-se. Se, em 1990 havia 94 tipos, atualmente, em 1997 temos – 140 (54 tipos de bactérias de 17 famílias e 86 tipos de fungos de 20 famílias). Eles não somente vivem na estação, mas desenvolvem-se, mudam seus hábitos para adaptar-se às condições inusitadas do vôo e...  procriam.

Enquanto isso, nas fábricas dos EUA, Rússia, Canadá, Japão e mais nove países da Europa está sendo construída a mini-cidade espacial Alfa: quinze blocos com áreas científica, industrial e de moradia. O metro quadrado residencial de Alfa será o mais caro de todo o espaço ao redor do Sol. Somente os EUA gastarão cerca de 18 bilhões de dólares na construção deste arranha-céu orbital. A colocação em órbita destes blocos começará em junho de 1998. Entretanto, seria uma grande desgraça se, após um certo tempo, este milagre tecnológico acabar desmanchando-se em pedaços. Existe a ameaça da estação Mir (que serve de polígono científico para o desenvolvimento dos sistemas da futura mini-cidade espacial) ser brevemente devorada pelos micróbios. Isto significa que, após um certo período, a estação Alfa teria o mesmo destino. Para a astronáutica mundial isto seria uma tragédia muito maior do que o recente desastre no lançamento da sonda automática à Marte.

Esta ameaça foi anunciada por especialistas japoneses numa carta recentemente enviada à empresa Energia, construtora da estação Mir e que, atualmente, está construindo o bloco principal de Alfa, o funcional e de carga. Conforme acordos, faz alguns anos que a agência espacial russa fornece amostras de microorganismos da estação Mir aos americanos e, desde o ano passado, aos biólogos japoneses. Estes últimos levantaram toda a celeuma: ao examinar uma amostra descobriram nesta micróbios extremamente agressivos, ou seja, micróbios com alta capacidade de processar (comer) polímeros e metais. A delicada carta dos japoneses contêm frases extremamente cuidadosas, mas diz claramente que as conseqüências de sua descoberta podem ser fatais para a Mir no presente momento e para a Alfa no futuro.

Nos microorganismos, a troca de gerações acontece a cada 20 - 30 minutos. Neste espaço de tempo eles conseguem crescer, destruir algumas moléculas de material preferido, deixar descendentes e envelhecer. Nos 11 anos da missão da Mir no espaço houve a troca de 190.080 gerações de microorganismos.

A morte teórica da estação espacial pela ação dos micróbios é possível até sem aumento da agressividade destes. Muitos microorganismos na Terra alimentam-se de metais. Os mais gulosos entre eles são as bactérias tiónicas – oxidam o ferro 200.000 vezes mais rápido que o ar. Outras bactérias tem preferência semelhante por silício, alumínio, titânio, ouro, etc. Os fungos mofosos segregam ácidos que corroem as mais duras ligas. Além disso, culturas especiais destes últimos e de outros fungos distinguem-se de seus ancestrais como um canhão de um estilingue. Imaginem o que fariam tais bactérias tiônicas a bordo de uma nave espacial! No ambiente da nave o micróbio mais comum pode, com o tempo transformar-se em terrível mutante. Devido à ausência de ventilação externa, a umidade contida no ar deposita-se em forma de orvalho denominado "condensado". A umidade propicia o desenvolvimento de micróbios, pois contêm muitas substâncias alimentícias. Somando-se a isso, a radioatividade do local é ligeiramente mais elevada. A ciência estabeleceu que esta radioatividade não tem efeitos (pelo menos, negativos) nos astronautas. Mas – conforme as pesquisas -- estimula a atividade de microorganismos. Para finalizar, o microclima da estação é estável e sem alterações. Na Terra temos o verão, inverno, chuva ou vento. Já na estação -- a qualquer hora – o clima é de veraneio. Esta monotonia é capaz de enlouquecer o ser humano. Os desacerebrados micróbios, entretanto, sem problemas psicológicos, aproveitam e procriam livremente, sendo este o único objetivo de sua existência.

Se os receios dos especialistas japoneses forem confirmados e na estação espacial aparecerem mutantes – isso será como o aparecimento autôgeno de uma arma bacteriológica. É uma pena eles devorarem a própria estação. Teria sido muito pior se um astronauta caísse numa situação trágica e não conseguisse abandonar a tempo o local em caso de infestação microbiológica. Se estes mutantes conseguirem sair do espaço e chegarem à Terra, será o início de uma guerra de monstros invisíveis contra a nossa civilização. Começarão a desmanchar-se carcaças metálicas de edifícios e tubulações que conduzem água, gás e petróleo, cairão pontes, guindastes, desmanchar-se-ão panelas e colheres.

Seria este apocalipse uma ameaça real?

Barreiras

A tripulação, a nave espacial e as cargas são criteriosamente submetidos à uma proteção antibacteriana especial. Nos 11 anos de existência a estação foi visitada por cerca de 50 astronautas. Durante este período, eles sofreram somente dois acidentes extraordinários: surgiram espinhas nos locais de seu corpo de onde foram tomadas amostras de sangue para analise (com uma seringa). Culpados disso foram micróbios inofensivos. Micróbios patogênicos não conseguem passar pelas barreiras construídas pelos médicos.

Com os micróbios-tecnófilos o caso é diferente, apesar dos técnicos lutarem sem descanso com a sua desinfecção. Existe um momento quando o fabricante realiza o primeiro tratamento antimicrobiano obrigatório na fábrica. Este tratamento é repetido durante a montagem do equipamento: cada peça passa pelo tratamento antes de ser montada. Os montadores somente são admitidos nos locais de trabalho após passarem no exame médico. Durante a montagem da nave, o acesso à mesma é feito através de uma comporta de esterilização, onde os montadores a cada vez vestem uniformes novos. Com o término de todos os trabalhos efetua-se uma desinfecção final de toda a parte técnica. Aliás, para esta desinfecção utiliza-se somente o peróxido de hidrogênio comum (água oxigenada). Esta substância (muito usada por nossas avós para tingir cabelos) foi vitimada pelo progresso na cosmética humana mas adquiriu nova vida na "cosmética tecnológica". Neste campo, o peróxido de hidrogênio é utilizado por ser o único meio ecologicamente limpo. Basta pulverizar com aerosol ou esfregar uma superfície com o peróxido líquido para matar todos os micróbios. Em seguida, o peróxido desaparece separando-se em substâncias inofensivas -- oxigênio e água.

Apesar disso, algumas dezenas de microorganismos tecnófilos quase inofensivos, conseguiram chegar à estação especial e alguns deles sentem-se lá bastante à vontade.

 

Extrato de relatório científico

11 anos de pesquisas revelaram que os microorganismos crescem mais ativamente nos seguintes setores da estação espacial: linhas centrais elétricas e hídricas, dutos, equipamento de esfriamento e secagem, ar condicionado, bloco de eletrólise de oxigênio, fones do capacete do escafandro, setores de revestimento.

Uma das naves Soyuz quase esterilizada, ficou atracada à estação Mir durante três meses. Os micróbios residentes na estação e constantemente combatidos, conseguiram penetrar na nave Soyuz. Ficaram lá sem qualquer vigilância e devoraram completamente a superfície da janela-vigia que perdeu a transparência. As bactérias bacillus polimicsa, indiferentes ao vidro da vigia, alimentavam-se da umidade que nele se depositava. Mas, eles próprios serviam de alimento para os fungos penicillum chrisogenum e aspergilus versicolor. Estes fungos segregavam ácidos tão fortes que nem o vidro resistiu. Se essa situação continuasse por alguns anos, simplesmente abrir-se-iam buracos na vigia.

Hoje, os micróbios já deixam astronautas em situações de extremo perigo. Certos pesadelos, bem conhecidos dos especialistas, não chegam às notícias da TV e dos jornais. Em alguns setores da nave, o ar começou a aquecer-se demais deixando o ambiente insuportavelmente quente e irrespirável.  A causa foi o entupimento dos dutos de ar. Para entender como sentiam-se os astronautas, tente trabalhar numa sauna ou, pelo menos, fique sentado lá  tentando resolver algumas palavras cruzadas.

Aliás, o mecanismo de formação de entupimento dos encanamentos foi um mistério para os cientistas. Quando as linhas principais entupidas foram retiradas e examinadas, não se encontraram quaisquer entupimentos. Estes desmancharam-se... Por que na falta de gravidade os micróbios aglomeram-se? Na Terra isto não acontece. Este fato confirma, mais uma vez, que o espaço tem as suas próprias leis, alterando o comportamento de micróbios. É possível que estas leis sejam inofensivas e que possam ser utilizadas nas futuras tecnologias espaciais. Se for assim, ótimo. Mas, e se não for? E se a crescente agressividade dos micróbios transformar-se num flagelo da astronáutica?

Pode parecer estranho, mas uma das mais importantes atividades do astronauta em vôo é enxugar regularmente com um paninho diversas superfícies dentro da nave. Nem a mais cuidadosa dona-de-casa limpa o seu lar com tanto esmero. Ela só quer que tudo esteja bonito. O astronauta, entretanto, luta pela própria vida. Seu paninho é uma poderosa arma na luta contra o inimigo. Ele elimina microorganismos que encontram-se na umidade, evitando com isso diversos acidentes. Apesar desta repressão, os micróbios conseguiram por diversas vezes abrir buracos na isolação dos fios elétricos e o mofo úmido que cresceu numa placa eletrônica provocou curto-circuítos. Recentemente, a "cosmética espacial" russa conseguiu superar os concorrentes estrangeiros: o Instituto de Problemas Médico-Biológicos (IPMB) criou uma nova substância desinfetante – o fungistato. Esta pasta detêm o crescimento de fungos e, em vários casos, simplesmente salva a nave. Agora, os funcionários do IPMB e as Academias de Tecnologia de Química Fina passaram dos meios de defesa "cosméticos" para os de "culinária". Estão desenvolvendo coberturas "venenosas" e por isso absolutamente "não-comestíveis" que revestirão linhas elétricas e de água em locais difíceis de enxugar. Mais ainda: cientistas vão introduzir moléculas de flúor ou silício na superfície de componentes metálicos. Após a fluoretação e silicização, (procedimentos, assim chamados pelos especialistas) dos metais, a superfície destes componentes adquire a resistência da pirâmide de Quéops e torna-se "à prova de dentes" de micróbios.

 Aguardando a explosão

A carta dos japoneses provocou um choque. Por um lado, o crescimento da agressividade dos micróbios já havia sido observado pela primeira vez em 1992 pelos nossos médicos. Eles até publicaram um artigo sobre o assunto numa revista especializada, mas este foi redigido numa linguagem tão tranquila que muitos especialistas nem notaram o perigo evidente. Quanto aos jornalistas e, consequentemente, a grande massa de pagadores de impostos (que custeia os milagres espaciais) não poderia imaginar tal fato nem em pesadelos. Por outro lado, os especialistas japoneses acham que a agressividade dos micróbios da estação já está ultrapassando seus limites. Este comportamento é próprio de mutantes.

O principal microbiólogo russo, doutor em ciências médicas, Aleksandr Viktorov, não concorda com eles e acredita que o caso não chegou a nível de mutações. Ele parte do princípio de que a atividade dos microorganismos desenvolve-se por ondas: crescente e decrescente. O valor significativo é o valor médio. Ele acredita que os japoneses receberam uma amostra de micróbios da parte mais elevada da onda crescente.

Apesar disso, dr. Viktorov não esconde o fato de que a agressividade da "turma" que está aos seus cuidados aumentou substancialmente nestes 11 anos. Gráficos construídos a partir de dados deste período mostram que cada onda de atividade é sempre maior que a anterior. Em todo caso, o controle da situação é reforçado constantemente. Amostras de micróbios são trazidas da estação para o IPMB; cientistas semeiam-nos sobre os materiais de construção da nave, avaliam a capacidade de consumo dos roedores espaciais e formulam uma solução para os astronautas aplicarem criteriosamente nas zonas de risco. Ultimamente, cada nova amostra recebida da estação passou a ser comparada com as amostras guardadas dos anos anteriores e também com microorganismos que não estiveram no espaço. O elevado crescimento de sua agressividade torna-se cada vez mais evidente.

Este é um campo desconhecido para os cientistas. A acumulação de novas capacidades dos micróbios faz com que, num determinado momento, a sua agressividade cresça repentinamente. Na Terra, acontece algo semelhante com os guardiões de antigos manuscritos. Durante 200 - 300 anos nada acontece com os textos e, de repente, em uma única hora as letras desaparecem. Ssão devoradas por micróbios mutantes.

 

"Vigilância espacial"

Os cientistas pretendem prolongar a missão da estação Mir (que já cumpriu o triplo do seu prazo de vida) para, pelo menos, 15 anos. Este período não foi marcado para arredondar a data e conceder-lhe uma medalha. O que temos é um puro teste científico: pretende-se conhecer o limite de resistência da construção da nave e meios de prolongar sua vida. Além disso, microbiólogos tentarão prognosticar o momento de formação de micróbios-mutantes. Eles também querem descobrir se é possível o transporte de microorganismos da Terra para Marte e outros planetas que a humanidade, mais cedo ou mais tarde, irá desbravar. Com este intuito, bactérias e fungos ficarão expostos por um ano na superfície externa da Mir. Se resistirem às severas condições do espaço aberto, isto será levado em consideração quando naves não tripuladas forem enviados a Marte.

Para concluir, apresentamos uma idéia sustentada pelo próprio acadêmico da Academia de Ciências da Rússia, Oleg Gazenko – que já foi o médico-chefe do programa espacial e enviou para o espaço dezenas de astronautas russos. Quando acontece uma alteração de fatores físicos espaciais em volta da Terra como, por exemplo, um aumento da radiação, os primeiros seres vivos a reagir a isto são os habitantes da estação Mir. Então, por que não aproveitar esta sua reação para auxiliar em determinados tipos de diagnósticos médicos, biológicos e até sociais? A ligação é absolutamente óbvia e é preciso estudá-la mais detalhadamente. Assim, quando em 1989 houve um repentino aumento da atividade solar, na estação espacial aumentou imediatamente a agressividade dos micro-organismos. Um pouco mais tarde, no nosso país, ocorreram os trágicos acontecimentos de 1991.

Autores: Vladimir Zasselsky / Irina Konovalova / Ekaterina Seniuchina

Extraído da revista "Ogoniok", N° 27, 07 de julho de 1997

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